segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Ir ao Circo

O telefone tocou na quinta-feira de manhã.

Do outro lado, ela disse-me:
- Tenho um bilhete a mais para o Circo Chen no Domingo. Como é? Vamos com os miúdos.

E eu no Sábado respondi que sim.
O pai não podia ir nem ficar com as miúdas.
De modo que, Domingo de manhã, a confusão começou às 11 horas da matina.
Banho à Eva e à Maria.
Vesti-las.
Dar a sopa a uma e a outra.
Depois a fruta.
E depois uma bolacha.

E depois ir a correr tomar banho com o Vicente.
E vesti-lo a ele.
E vestir-me a mim.

Depois vestir as miúdas enquanto o pai dava o almoço ao Vicente.
Depois comer eu qualquer coisa.
E enfiar o lanche delas e o jantar num saco, com mais não sei quantas fraldas e brinquedos e os pijamas para a noite e uma muda de roupa para casa, não fosse a coisa correr mal.
E na minha mala meia dúzia de bolachas e um pacote de leite com Nesquik.
E uma garrafa de água.
E uma fralda, não fosse aquilo ser complicado.
E a máquina fotográfica.

E depois foi colocar esta malta toda no carro.
Primeiro o Vicente e os seus 1553 carros.
Depois uma delas.
Depois a outra.
E o carrinho delas.
E dizer adeus ao pai.
E ir a correr pôr gasóleo.
E mandar-me para Lx.

O Vicente resistiu ao sono.
Elas adormeceram logo.
Só parámos em casa da avó G. (emprestada, mas a melhor do mundo!)
Eram 15 horas.
Depois foi levar tudo para o segundo piso, sem elevador.
No tudo os miúdos também estão incluídos.
E explicar o lanche, e o jantar, e as manhas e os vícios.
E como se abre e fecha o carro.
E pôr o Vicente a fazer xixi.
E pirar-me com o puto.

Eram quase 16h quando chegámos à (antiga) feira popular.
Voltas e voltas e voltas até conseguir estacionar o carro.
Longe, demasiado longe.
Longe porque.... "mamã, quero colo".
E lá fomos nós.

Assim que chegámos encontrámos logo os nossos amigos.
E encontrámos também uma fila para entrar.
Enorme e estática.
Foram 45 minutos de espera, com o Vicente a querer pirar-se dali e ir andar em tudo e mais alguma coisa.
Depois começaram os encontrões para entrar e eu comecei a passar-me.
Depois, assim que entrámos.... "mamã, quero fazer xixi".
Nova fila para a casa de banho.
E depois xixi de pé com a minha mochila, o casaco dele, o gorro, um saco com ofertas não sei de quê e as gomas e os chocolates e o bilhete e sei lá mais o quê.
Enfim. Fez-se.

Depois entrámos no recinto propriamente dito e.... estava tudo cheio.
Cheio daqueles que não vão sozinhos ou levam miúdos maiores que não têm que fazer xixi naquelas horas.
Subimos, subimos, subimos até ao topo da bancada.

E lá ficámos, com os putos ao colo e um calor insuportável.
E vimos tigres e palhaços.
Trapezistas e acrobatas.
Mágicos e bailarinos.

E tirámos fotos com um leão bebé.
E comemos porcarias.
E já passava das 18.30h quando acabou.

Saímos, os nossos amigos foram embora, e nós ficámos sozinhos - eu e o Vicente - a andar nos carrosséis.
Nos barcos e nos camiões dos bombeiros.
Nos insufláveis e nas motos.

E foi debaixo de sonoros protestos que, às 19.30h, o consegui tirar de lá.
Foi no meu colo, aos berros, até ao carro.

Primeiro porque queria "brincar mais um cadinho".
Depois porque "dói a orelha".

E chorou, chorou, chorou.
Mais do que o costume.
Tentei acalmá-lo no carro.
Liguei para saber notícias das miúdas e vi que estava praticamente sem bateria.
Liguei ao pai.

E ele continuava a chorar por causa da orelha.
Tentei distraí-lo. Em vão.
Tentei animá-lo. Um fracasso.
Tentei suborná-lo. Sem resultados.

Partimos em direcção a casa da avó G.
Passámos pelo Mcdrive, já que nem me atrevi a parar.

Ele continuava desesperado e eu começava a acreditar nele.
Fiz um discurso inflamado à orelha.
Que era uma feia, que se estava a portar mal, que não ia ter prendas no Natal.

Mas a sacana da orelha continuava a doer.

Quando chegámos a casa da avó G. eu já estava passada.
Pedi ao avô A. (também emprestado :) ) para ir à Farmácia comprar Benuron.
Ele foi.
O Vicente gritava.
As miúdas gritavam com ele.
Tinha febre, o que é uma novidade nele.
A avó G. achou que o avô, que demorou 10 minutos, estava a demorar muito e foi à vizinha de cima, que tem um miúdo pequeno.
Ela tinha Benuron Xarope.
O Vicente tomou mas sem grande fé:
"Não vai passar mamã, não vai passar!", gritava ele.

15 minutos depois parou de chorar.
Eram 9.30h da noite.
Depois lá aceitou as batatas fritas.
Com maionese.
As miúdas berravam cheias de sono.
E ele comia devagar.
E eu dizia: "Vamos embora"
E ele respondia: "Ainda não acabei".
E o tempo passava.
E a bateria do telemóvel já estava a vermelho.

Entretanto vestimos os pijamas às miúdas.
E eu tomei um super café para a viagem.
E depois ele lá comeu a última batata.
E eu vesti-lhe o casaco, e o gorro, e preparei as miúdas e desci com o carrinho e subi com os ovos, para elas não apanharem tanto frio.
E depois ele diz: "Mamã, quero fazer cocó".
E eu suspiro.
E meto-lhe a fralda, porque ele só faz cócó na fralda.
E depois tiro-lhe a fralda.
E volto a vesti-lo.
E descemos todos, cada adulto com a sua criança.
E eu meto o Vicente no carro.
Depois a Maria.
Depois a Eva.

E arranco às 22.15h para uma viagem de uma hora, sozinha com três crianças no carro, uma com uma otite e eu sem bateria no telemóvel.
O Vicente começa a choramingar a dizer que a orelha estava a doer.
Passei um novo sermão à orelha, que desta vez resultou.
A Eva começou a chorar.
Estico o braço para trás e dou pancadinhas no ovo até ela adormecer.
Ela adormece.
O Vicente também.
A Maria é a última resistente.
Chove.
No rádio toca "Do you remember those happy days".
Tenho sono.
Ponho o carro mais frio.
O Vicente vai tossindo.
A Eva acompanha.

Chego a casa já passa das 23h e o portão não funciona.
Saio e dou-lhe um pontapé. E outro. E ainda outro.
Até que ele começa a abrir.

O cão salta-me e ameaça fugir portão fora.
"Atreve-te", digo-lhe.
Ele volta a entrar.
Chego à garagem e chamo o pai para ajudar.

Ele leva as miúdas nos ovos.
Eu levo o Vicente ao colo.

Elas vão para a cama.
Ele fica a dormir no sofá.

Corro para o computador e respondo a um mail do meu orientador.
Sobre um paper e uma apresentação e uma reunião.

À uma da manhã o Vicente acorda.
Tiro-lhe a temperatura.
Dou-lhe Brufen.
Quer leite com chocolate.
E ver o Faísca.
E colo, colo, colo.
Da mãe.

E levo-o para a (nossa) cama.
E eu quero ir à casa de banho e ele berra.
E faço xixi com ele sentado ao meu colo.
E ponho o telemóvel a carregar na mesa de cabeceira.
E deito-me com o Vicente colado a mim.

E o pai apaga a luz.
E uma delas chora.
E eu vou ao quarto delas.
E o Vicente fica aos berros "a minha mamã, a minha mamã".
Ponho a chupeta à miúda e corro, corro mesmo, para ao pé do Vicente.
Deito-me.
Respiro fundo.
Fecho os olhos.
Volto abri-los.
Estico a mão para o telemóvel e na minha lista de compras acrescento Benuron Xarope e carregador para o telemóvel para o carro.
Fecho os olhos e o filme do dia passar a correr na minha cabeça.
E eu penso: "Que circo meu Deus, que circo......"

20 comentários:

Marina disse...

Credo, que circo mesmo... Espero que o Vicente tenha melhorado. Bjs

jmalho disse...

Que circo! - foi o que eu pensei também - é uma estafa!

Bjos, Joana

plena disse...

Ãiii,sinceramente ,juro,só de ler cansei-me,quanto mais imaginar passar por isso.Mas que hei-de eu dizer,somos MÃES ,resistimos a tudo!!Lol....força,muita força nas canetas.Bjs da LP e companhia.

Filipa Serrão Oliveira disse...

eh que cena, fiquei cansada só de ler! Nem sei como tens coragem de sair assim com os 3 =) acho que desistia à primeira tentativa!
Que circo realmente. Espero que o Vicente esteja melhor. Uma otite doi imenso coitadinho =(
beijinhos

A mãe que capotou disse...

I remember those happy days

Mami ( Sónia ) disse...

Estou cansada só de ler...Como uma coisa aparentemente tão simples se torna tão complicada.
Espero que o Vicente já esteja melhor.
Beijinhos grandes e os meus parabéns!

Ana Costa disse...

Possa... até fiquei cansada só de ler... lol

Espero que estjam melhores!

Beijocas

Patrícia Teodoro disse...

olha tu já tens o curso todo para malabarista essa é que é esa. parabéns por tudo o que tens e por tudo o que és

AndreiaA disse...

Q circo, hein...
As melhoras do Vicente e umas grande dose de paciencia para ti, lol.
Bjs e Bom Natal

Isa disse...

Puxa... até estou cansada! Mas sei quase o que isso é, porque com um que so quer mãe vejo me consumida.

Agora que vão ser dois nem quero pensar.

beijinhos

Mãe da Tiz disse...

Eu para não variar fiquei cansada só de te ler. Mas porque raio não ficaste tu sossegada em casa com os 3?! Eu não teria essa coragem... Espero que o vicente esteja melhor!

Beijos***

Anónimo disse...

Há dias complicados mas o giro é o teu jeito para os descrever ;)
eu não fiquei cansada de ler, até gostei pq relatas na perfeição e sem arzinhos de supermãe o dia á dia de tantas e tantas outras :)
parabéns !

Olga disse...

credo...até fiquei cansada só de ler...ufa

Muxagata disse...

Ora aí está a descrição perfeita para os dias em que nós mães decidimos fazer alguma coisa "gira" que quebre a rotina.... Fazemos tudo por eles. Mas eles só o saberão quando também forem pais.
As melhoras do pequenino.
...obrigada por mais um magnífico post.

Sara disse...

E eu só tenho uma e também tenho circos desses, especialmente o do choro e ter de ir à casa de banho com ela ao colo. Estão tão mal habituados... :).

Maria Vicente disse...

Ai jesus credo.
Bom Natal miga, tudo de bom para voces, beijo

pedradababy disse...

Meu Deus do Céu. Até suspirei fundo quando adormeceste hehehehheheh que grande aventura. Circo de novo só daqui a 10 anos heheheheheh
Beijos muito grande e Feliz Natal para ti e para a tua linda e agitada Família

Rraimundo disse...

Que circo, mas tenho a certeza que fazia tudo outra vez so para ver os teus rebentos feliz!

Aproveito para te desejar a ti, as tuas fofinhas, ao Vicente que é um homenzinho e ao resto da familia, marido, cão, gatos, etc, etc, um Feliz Natal e dias mais calmos mas com mt amor, alegria e saúde!

Gasparzinha disse...

Feliz Natal são os votos dos Gasparzinhos.

Márize disse...

Eu admiro-a, a sério.
Feliz Natal para si e para os seus meninos.